Clarisse Baptista,

48 anos, é protagonista e autora do espetáculo Solamente Frida, que vai percorrer vários Estados brasileiros pelo Palco Giratório em 2014 destacando os limites do corpo, a luta pela vida, a entrega às paixões e a mente criadora da pintora Frida Kahlo.
A artista plástica mexicana Frida Kahlo foi uma mulher intensa e sensível que transformou a própria dor em arte. Na pintura do século XX não há outro nome como o dela. A Cia Garotas Marotas escolheu trechos da vida da pintora para contar a feminina história de Frida a outras mulheres – e homens. No recorte de alguns aspectos da vida da artista, o público pode reconhecer a si mesmo e a mulheres fortes em sua fragilidade. O espetáculo Solamente Frida concentra-se no que há de mais humano na trajetória dessa personagem real, que “enfrentava e desafiava homens e mulheres e conseguiu ser respeitada e admirada como artista em um meio pouco frequentado pelas mulheres.”, destaca a protagonista da peça, Clarisse Baptista.
Viver Frida Kahlo no palco é, para a atriz, uma escolha acertada e feliz. “A cada dia descobre-se mais. A vida de Frida é muito rica, há muito que aprender.”, comemora. Para compor a personagem, Clarisse realizou muitas pesquisas sobre o assunto e se preparou com uma rotina de ensaios apaixonada: “A gente leu pra caramba, estudou, viu filmes e procurou saber tudo que foi possível sobre ela”, conta.

Clarisse explica a escolha pela história da vida da pintora, uma mulher tão forte, dizendo que acredita que sempre optamos falar daquilo que gostamos ou admiramos.

 “Escolhemos alguém que tem algo a dizer, alguém que significa para nós aquilo em que acreditamos. Frida Kahlo é uma dessas personagens. Além de ter produzido uma obra admirável, ela era uma mulher apaixonante pelo profundo amor que tinha pela vida, pelo valor que deu à vida. Não só à dela, como à vida dos outros. Sempre defendeu e pintou o amor que teve pelas pessoas, pelo mundo, pelas coisas.”, diz.

A atriz acredita que Frida era uma mulher à frente do seu tempo porque tinha uma forma rara de viver: “Viveu intensamente todas as suas paixões. Amava e praticava a liberdade”.

Clarisse conta que o espetáculo Solamente Frida trata da vida extraordinária de Frida Kahlo, sua admiração e orgulho pelo povo do México, “um país amado por ela e seu marido, Diego Rivera”. A peça é sobre dedicação dos dois pintores à arte, possível de reconhecer na visita a casas, estúdios e museus, como o de Anahuacali, em Coyacán, no México. “Durante toda a vida Frida Kahlo e Diego Rivera se envolveram na defesa do povo mexicano, da arte do povo mexicano, defenderam a justiça e a liberdade, a igualdade entre todos. E punham a arte acima de qualquer coisa.”, destaca a protagonista.

A atriz e autora reforça que o espetáculo não é exatamente uma biografia, mas trata do que de mais humano o grupo encontrou na história de vida de Frida. “Não são fatos que relatamos, mas seus sentimentos em relação à morte, à arte, à vida, aos amigos, à família, aos seus amores”, diz a atriz explicando humano também como o que comum a todos.

O recorte do grupo Cia Marotas talvez explique um pouco da identificação experimentada pelo público e relatada por Clarisse, experiência de quando a peça circulou pela Amazônia: “Há muita identificação. Homens e mulheres se comovem. Às vezes muitíssimo.” Alguns fazem questão de dizer, outros preferem ficar em silêncio, agradecem, choram, dão presentes, abraçam. Clarisse conta que mesmo as crianças que viram, referem-se muito aos momentos de Frida falando do amor, memorizando textos e cenas: “Não importa que não acompanhem completamente todo o texto, a compreensão do espetáculo felizmente se dá pelas imagens, pela música, pelos diversos momentos de Frida.”, diz.  “Solamente Frida é simples, sempre desejei que fosse para todos. Porque Frida era assim”, sintetiza a atriz.

Para Clarisse, o espetáculo é feminino, mas não só e explica: “Não, porque as dores e alegrias de Frida não pertencem só à Frida, ou às mulheres. Dizem respeito a todos, homens e mulheres.”, reflete. “Ela era uma mulher forte, decidida, independente, talentosa e inteligente”, completa, “que produzia ao lado dos homens, que estudou em colégios onde predominavam os homens. Frida enfrentava e desafiava homens e mulheres e se relacionava bem com todos. Conseguiu ser respeitada e admirada como artista em um meio pouco frequentado pelas mulheres.”, diz.

O espetáculo Solamente Frida é forte e delicado como a personalidade da pintora. Há momentos de grande alegria e de dor. “Solamente Frida é como um sonho. Muitas imagens apresentam Frida, imagens criadas coletivamente por nós. Na feitura do trabalho mesmo”, explica Clarissa lembrando que no processo residem a dor e o prazer de fazer: “Há momentos difíceis, nunca é tão simples.”, reflete.

Quando o ator vive um personagem no trabalho, mergulhando intensamente na vida dele, é quase inevitável não trazê-lo um pouco para a própria vida. Como não destacar semelhanças e as mais gritantes diferenças? A atriz destaca a coincidência de iniciar o trabalho sobre a vida de Frida justamente com a idade que a pintora faleceu: “Nossa estreia se deu no momento em que eu tinha 47 anos, idade em que Frida morreu. Ela ainda teria uma longa vida pela frente, mas estava cansada.”  E continua: “Eu não tenho os problemas e as dores físicas que a pintora teve. O que nos une é o prazer de fazer bem feito, o cuidado e o desejo de continuar, apesar das dificuldades, e o gosto de fazer o teatro que faço, como e com quem faço.”

Clarisse reconhece no momento em que vive a realização profissional: “Uma das coisas que mais gosto é o fato de estar trabalhando exatamente com pessoas com as quais escolhi, do Brasil e da Bolívia. No caso, o Grupo Teatro de Los Andes. Esse grupo boliviano, como Frida, tem um grande amor pelo que faz, sempre. “

Clarisse também vive agora as expectativas com a estreia do Palco Giratório. “Já fiz o Palco em 2002, com outro trabalho. O Palco é uma das poucas oportunidades que os grupos de teatro no Brasil têm de viajar, conhecer, aprender, trocar e garantir uma vida mais longa aos seus trabalhos.”, diz.

Em 2014, o Palco Giratório homenageia uma mulher, Qualquer coisa a gente muda, o espetáculo que celebra a vida bailarina de 86 anos Angel Vianna é a peça foi escolhida para o Circuito Especial desta edição.