Débora Lima,

60 anos, Professora de Educação Física, atleta e vencedora de três edições do Circuito Sesc Triathlon em Brasília, fora muitos outros premiações no esporte.
Enfrentar os trajetos a nado, correndo ou de bicicleta são apenas parte do desafio da professora. Orfã de mãe aos 13 anos e tutora de quatro irmãos e mais um sobrinho aos 21anos, a atleta corria com uma bicicleta amadora e contava com o apoio até para a alimentação para conquistar tantas vitórias. E não é só. Débora ficou 20 anos sem competir e treinar, voltou e conquistou tudo de novo na categoria máster.

Na terra, na água, sob duas rodas. Para muitos a tarefa de completar um circuito que contenha corrida, natação e ciclismo já é em si uma façanha. Imagine isso aos 60 anos. E imagine agora muitas medalhas, muitas vitórias em anos diferentes e o pioneirismo de gênero na categoria em Brasília. Não subtraia os obstáculos. Dificuldade em conseguir uma bicicleta? Sim, porém até menos do que isso, um tênis, ou até mesmo a alimentação adequada para aguentar os treinos. Imagine ainda ficar 20 anos parada, retomar as atividades depois de todo esse tempo, após dois filhos no “currículo”. Não imagine mais. Débora Lima, professora de educação física de Brasília, vencedora de três circuitos do Sesc Triatlon (em sua faixa estaria) na cidade já realizou tudo.




Débora começou a praticar esportes quando foi possível, aos 23 anos, ano de 1977, cursando a faculdade de Educação Física no Distrito Federal. Logo depois disso, começaria a conquistar o impossível. A atleta começou na corrida participando de provas de 800m, 1500m, provas de rua, meia maratonas e maratonas. Quando o Triathlon começou a surgir como modalidade no Brasil, em 1984, Débora foi chamada pelo treinador Djan Madruga e pelo técnico Roberto Lambevert para treinar e competir.

“Fui servidora do Exército e muito podada, pois não era liberada para treinar”, conta. “Em um mês pagava aluguel, no outro comprava comida. O esporte era uma fuga. Eu queria mostrar que poderia ser tão boa quanto aqueles que tinham condições de comprar roupa, tênis. Levantava às 3h da manhã para pedalar e correr. Tomava banho e ia para o trabalho.” , relembra.




Durante todo o seu percurso, Debora contou com o suporte dos treinadores, como o técnico João de Oliveira. Até mesmo a alimentação da atleta era complementada por eles. Hoje, ela faz o mesmo pelos alunos do Colégio Militar em Brasília, investindo nos atletas em que acredita, ajudando a manter a alimentação adequada dos jovens. “Já levei um atleta ao (campeonato) Sul Americano”, comemora.




Quando começou a competir, a triatleta corria com uma bicicleta (popular e amadora) Caloi 10 de alumínio, enquanto os competidores possuíam equipamentos importados e muito mais leves. “Mesmo assim eu brigava de igual para igual”, relembra. 



Em uma competição em São Paulo, Débora caiu da bicicleta e quando levantou já havia perdido o pelotão. Insistiu, alcançou novamente o grupo e... ganhou a prova! O técnico Claudio Coutinho havia levado um amigo americano para acompanhar o cricuito. O estrangeiro trabalhava com equipamentos esportivos, ficou impressionado com o potencial da atleta e se ofereceu para mandar fazer uma bicicleta para a esportista na Itália. O empresário enviava o quadro e o técnico se responsabilizaria por montar todo o restante. O técnico estava recém-casado e sua estava mulher grávida, mas ele deixou de comprar o enxoval do bebê para investir em Débora. A triatleta correspondeu treinando muito e vencendo o Circuito Brasileiro em 1986. Hoje a bicicleta é uma espécie de troféu que ela ainda guarda.




Anos depois, após o nascimento do segundo filho, Débora parou de treinar e ficou 20 anos sem competir. Em uma consulta, o médico sugeriu uma atividade esportiva. Débora escolheu a natação, o exercício virou treino e consequentemente, competição. Logo estaria ganhando provas na categoria Master. A convite de um amigo, que a incentivou para ela estimulasse outras “senhoras”, voltou a competir e (a vencer) em provas de Triatlon.




“Me sinto muito realizada quando alunos que se formam e escolhem a Educação Física”, diz Débora, que é um estímulo tanto para mulheres mais velhas como para jovens. “Muitos alunos me procuram pra dizer que gostariam de aguentar o ritmo como eu ou de ver a mãe se exercitando também.”, conta orgulhosa.