Isabel Lira e Grasiela Bessa,

32 anos e 43 anos, respectivamente, são profissionais das Unidades Móveis do Sesc Saúde Mulher
Grasiela experimenta em Goiás a recíproca do bom acolhimento do público, gerenciando a equipe que leva os exames de preventivo, ultrassonografias e mamografias a comunidades carentes do Estado. Isabel é técnica de enfermagem e sua presença confortante garante apoio e cuidado a pacientes que recebem a unidade móvel no Rio Grande do Norte. Em comum, a rotina: as duas deixam suas casas e viajam para levar informação em educação em saúde e exames para outras mulheres.
Gratidão é a palavra que a enfermeira e gerente da unidade Sesc Saúde Mulher de Goiás Grasiela Bessa mais emprega para falar do seu trabalho na unidade móvel. Não por acaso, seu nome vem justamente da palavra. Grasiela deriva do italiano Grazie, que quer dizer agradecida.

Grasiela Bessa acorda às 5h40 para às 7h estar no trabalho. Deixa em casa os filhos gêmeos de 13 anos para gerenciar a equipe formada por mais oito profissionais. Juntos, eles desenvolvem o trabalho que os gratifica, em todos os sentidos, e que atrai a gratidão de mulheres de todas as idades que procuram a unidade móvel do Sesc Saúde Mulher em Goiás para a realização de exames como mamografia, ultrassonografia e preventivo.

Na primeira semana de atendimento no município de Senador Canedo, uma senhora na faixa dos 60/70 anos procurou a unidade móvel dizendo que nunca tinha feito exame preventivo. A paciente queria muito marcar o atendimento, mas não conseguia agendar a consulta porque estava ocupada durante todo o dia cuidando do neto. Não havia horário disponível. A equipe da unidade foi mobilizada, flexibilizaram o horário e ainda assim a paciente não conseguia marcar. Quando foi embora, a equipe ficou desolada porque mesmo oferecendo alternativas não conseguiu marcar o exame.  Para piorar, a senhora não deixou contato. Mas para a surpresa dos profissionais, ela voltou no dia seguinte - e com o neto! Às 7h em ponto lá estava ela, mesmo sem ter marcado, confiando que seria atendida. A mobilização foi grande novamente e ela não só foi encaixada, como a equipe tomou conta do neto para que o atendimento pudesse acontecer. Mais um dia e a idosa estava lá novamente, dessa vez para agradecer e levar biscoitos fritos para os profissionais.

 “É impressionante como a gente recebe carinho da população. O tempo todo estamos recebendo presentinhos, biscoitinhos, bolinhos, pessoas que voltam para agradecer, que querem simplesmente nos dar um abraço”, diz. “Eu e a equipe temos experiência na saúde pública e sempre trabalhamos com comunidades carentes, mas o que nos surpreende é o retorno. A abordagem humana que oferecemos aqui realmente transforma”, relata Grasiela explicando as diretrizes do trabalho em saúde realizado pelas unidades do Sesc.

“Na rede pública, nós trabalhávamos com famílias inteiras, na Unidade Móvel do Sesc Saúde Mulher trabalhamos apenas com e para a mulher e a recebemos com muito carinho, temos uma abordagem toda voltada para ela e suas necessidades”, explica a enfermeira. Dentro dos temas de Educação em Saúde a proposta é estimular a autoestima, informar sobre a sexualidade, falar sobre cuidados pessoais e muitos temas que cercam o cotidiano feminino.  “Nós somos muito semelhantes. Tratamos o paciente como igual. Somos tratados e tratamos de forma humanizada. É assim que recebemos essa mulher”, conta. 

“A confiança depositada na equipe nos comove muito”, conta Grasiela. Cada encontro é uma oportunidade de estabelecer a confiança. “Levamos as pacientes a confiarem. O atendimento acontece em etapas:  a mulher marca e faz o exame, vem aos encontros de educação e saúde e volta para buscar o exame.”, completa. 

“Eu busquei estar onde estou e é muito gratificante.”, diz Grasiela. A enfermeira conta que até o relacionamento com o ex-marido melhorou. Ele deu muita força quando ela decidiu encarar a função, o que significa que ela esteja disponível para acompanhar as viagens da unidade móvel. Em compensação, hoje o pai dá suporte e está mais presente na vida dos filhos.

Com tanta dedicação diária, Grasiela sente que evoluiu como profissional. Aprendeu que tudo tem seu tempo, embora a vontade de resolver tudo e de nunca dizer não seja grande. Agora, percebe que as prioridades são importantes na vida pessoal e na vida profissional. “A sensação constante é a de missão cumprida.”, reflete.

Isabel Lira, a técnica de enfermagem que acompanha a Unidade Móvel Sesc Saúde Mulher no Rio Grande do Norte tem a mesma percepção do trabalho que a gerente da unidade de Goiás:  a maior satisfação é receber o agradecimento das pacientes. Ela percebe a gratidão no olhar das mulheres que esperam até três anos para garantirem a realização de um exame na rede pública.

“Levar o benefício a quem não tem condições, ir até quem precisa, levar o cuidado e a informação... tudo isso é muito gratificante”, diz . Isabel se encanta com pacientes que se esforçam para retornar e agradecer o atendimento e ainda  convidam para almoços em suas casas ou dizem até que rezam pelos profissionais da unidade. “É a forma que elas têm de dizer obrigado!”.

O trabalho de Isabel é oferecer apoio e cuidado no atendimento à mulher na unidade móvel. A presença feminina dentro do consultório pode ser um alento para quem se sente desconfortável em ser atendida por um médico, mas no interior do Brasil, onde o pudor e o machismo são maiores, a presença da técnica de enfermagem significa muito.

Em dois anos de estrada pelo Sesc, Isabel, que está em Lajes, a sexta cidade que a sua unidade visita no Estado, já perdeu as contas de quantas vezes uma consulta teve de ser interrompida porque a paciente estava tremendo ou até mesmo chorando. No interior do Brasil, e ainda mais nas comunidades carentes, as mulheres muitas vezes não estão acostumadas aos procedimentos de rotina de exames médicos e a insegurança as fragiliza.

O acolhimento é uma das chaves do sucesso do trabalho nas unidades. Muitas vezes as pacientes precisam ser convencidas a serem atendidas. Ouvir as histórias de medo e vergonha é importante. Recentemente, Isabel apoiou uma paciente que já estava na maca ginecológica quando começou a chorar. O exame foi interrompido, o médico saiu da sala e a técnica acalmou a paciente explicando mais uma vez como seria feito a ultrassonografia. Isabel ouviu da paciente que ela tinha medo da possível dor que o exame poderia causar. Contando mais, disse também que teve dificuldades em perder a virgindade com o marido e que ainda tinha muito medo. Assim, foi orientada a buscar apoio. A consulta levou muito mais tempo que o usual. “A prioridade é o tratamento humanizado do paciente. Sempre que é preciso a gente interrompe e acalma, conversa, orienta e, principalmente, ouve a mulher”, relata.

Outro caso recorrente que chama a sua atenção é o de homens que precisam ser orientados. Só depois de muita conversa e informação, alguns deles permitem que suas esposas façam o exame. Alguns têm preconceito com médicos homens. Outros, com o próprio exame em si. E na mediação, Isabel e a equipe se desdobram para conquistar o objetivo: realizar o exame. Não é raro o número de mulheres que fazem a consulta escondida dos maridos.

Na cidade de Estremoz havia uma mulher que não estava conseguindo realizar o exame, pois o marido não deixava. Isabel precisou leva-lo ao consultório, explicar toda a rotina, insistir em informar que estaria sempre presente.

“O mais importante é estar aberta para cada caso e saber como lidar com os imprevistos”, explica. Entre as questões estão àquelas de mulheres virgens, que têm medo de perder a virgindade ao serem examinadas, o medo de sentir dor e até mesmo a falta de crença de que o exame é relevante. “Outro dia precisei conversar uma paciente que veio trazida pela mãe. A filha não via necessidade na realização no exame. Precisei conversar a sós com ela e convencê-la”, relata.

Isabel está há dois anos no projeto pelo qual se apaixonou viajando com a “família” que se formou em tantas idas e vindas: a equipe formada por mais sete profissionais: “A gente se apoia em tudo, muito além do trabalho”.

A parte mais difícil para Isabel é deixar em casa o marido e a filha de 19 anos para viajar com a unidade móvel. A melhor parte é voltar pra casa e matar a saudade. “Quando a gente chega em casa não  tem briga, é muito bom!”, brinca.

O Sesc Saúde Mulher é uma rede em expansão. No momento, somente os estados de Goiás e Rio Grande do Norte possuem suas unidades móveis, mas atender mais mulheres é a meta das equipes do projeto. Do Departamento Nacional do Sesc, que planeja as ações para que as unidades cheguem a mais regiões do país, aos Departamentos Regionais que atuam nas comunidades, o Sesc Saúde Mulher é construído diretamente pelo trabalho de 20 mulheres. Um esforço muitas vezes anônimo para o grande público mas que não é esquecido pelas centenas que já foram atendidas nas unidades e que, muitas vezes, as conhecem pelo nome.