Maria Lidevina Pontarolo,

47 anos, é assistente social na unidade do Sesc de Poconé e atende a região do Pantanal
Quando surgiu a oportunidade de trabalhar no Mato Grosso, Lidevina, que morava no Paraná, podia até imaginar as histórias de mulheres simples e guerreiras que iria encontrar, mas a realidade superou as expectativas. Na simplicidade das comunidades ribeirinhas, a assistente social recebe um toque de sabedoria em sua própria vida.
Foram dias de cuidado extremo. Cada tipo de planta foi cuidadosamente disposta em partes diferentes da prateleira para alimentar as diversas espécies de larvas. A água sempre renovada. O jornal deveria ser retirado com cuidado com os restos das minúsculas fezes. A vida tão frágil dependia de olhares atentos a todo instante que as mantivessem protegidas dos olhares dos predadores. A vida no Pantanal pode ser frágil. Mas talvez inspire cuidados em todo lugar.

Para Fátima, já idosa, a esperança de um sentido e do alívio das dores da depressão se abriu nas asas das primeiras crisálidas que ganharam (nova) vida em suas mãos. Ela faz parte da Associação dos Criadores de Borboletas de Poconé, atividade que o Sesc Pantanal apoia e faz crescer. Os criadores coletam os ovinhos no borboletário do Hotel e os levam para criadouros em suas próprias casas. O trabalho é de observação, higiene, muito cuidado diário. A capacitação envolve os associados, mas em casa, toda a família recebe a informação sobre o trabalho e participa cuidando. Cada crisálida é adquirida pelo Sesc por pouco mais de um Real e garante assim renda extra de até 600 Reais para famílias de comunidades de Poconé e Barão de Melgaço (que compreende as regiões ribeirinhas de Perigara, Piraíba e São Pedro de Joselândia). Para Fátima, além da ampliação da renda, o trabalho trouxe a cura da depressão. A atividade envolveu seu tempo diário, outra percepção do meio ambiente e de sentido de vida. A dedicação a outros seres vivos renovou o seu cotidiano.

Quem conta a história de transformação é Maria Lidevina Pontavolo. Há uma década, a assistente social da unidade do Sesc em Poconé recebe em sua própria vida um toque de sabedoria e simplicidade  dessas mulheres humildes e fortes. Lidevina chegou ao Sesc com expectativas de quem não sabia exatamente como seria o trabalho em um lugar como o Pantanal, em que as distâncias são traçadas por cinco, seis horas de viagens de barco, ou ainda um pequeno avião, e que vizinhos moram a quilômetros de distância uns dos outros. “Nas cheias, a comunidade fica mais isolada”, diz.

A imagem da solidão e do abandono de algumas famílias, no entanto, a estimula a ficar até três semanas longe de sua casa, em Cuiabá, para visitar as comunidades, acompanhar o desenvolvimento do trabalho e trocar experiências. “Eu aprendo todos os dias com a determinação, a esperança e a alegria dessas pessoas, principalmente das mães.” A vivência no Pantanal reforça sua escolha profissional: “Vejo muitas coisas belas por aqui. É o que me dá força para trabalhar”.

Após 10 anos na região, Lidevina ainda se surpreende: “Toda a vez que envolvo as pessoas para chamadas de trabalho voluntário ou para lançamento de novos serviços elas estão muito abertas. Todo mundo tem vontade de fazer alguma coisa.”, conta. “Seja pela natureza, para a vida em comunidade ou para si mesmas, abrindo-se para participarem de atividades de educação em saúde, por exemplo.”, diz.

No trabalho, Lidevina experimenta a realidade das famílias ribeirinhas que só tem acesso à saúde e educação muito longe de casa. “Eu preciso acordar de madrugada para pegar o barco às três horas da manhã. Às vezes meu chefe pergunta brincando, por que essa hora? Eu sempre lembro que é melhor evitar o sol forte. É mais fácil viajar de barco sem sol.”, explica.

Quando conta a história, a assistente não valoriza o sacrifício, mas o aponta o olhar feminino, que antevê as dificuldades que o sol poderia causar ao percurso. “As mulheres têm cólica, têm filho”, diz ela simulando o discurso daqueles que ainda veem dificuldades na contratação delas, “mas tem visão detalhista sobre o todo. O que elas oferecem ao trabalho, talvez os homens não possam mesmo oferecer”, diz. “O olhar atento para pequenas coisas, a capacidade de organizar, pensar, sentir e considerar tudo definem um modo feminino de produzir.”, completa.

A assistente social não tem rotina e se desdobra para estar presente em todas as ações que o Sesc desenvolve nas comunidades. Já lembrar de boas histórias de mulheres do Pantanal não é esforço: “Angela Maria Cabral é uma batalhadora”, diz Maria Lidevina. “É um braço do Sesc na comunidade de São Pedro de Joselândia. Mãe de uma menina, é agente de saúde pela prefeitura e atua há dez anos como voluntária na divulgação e na organização das ações do Sesc junto à comunidade. Ela vai ao rádio local divulgar, sobe em árvore pra fazer o sinal do telefone pegar, quer saber o que a comunidade quer e o que precisa.”, explica a assistente social. As aulas de violão da região acontecem na casa dela, que cedeu o local para reuniões do grupo, que não tinha onde receber as aulas. “É muito desprendimento”, avalia Lidevina que lembra também de Dona Clélia, de 80 anos.

Viúva, Clélia mora com dois filhos na comunidade ribeirinha em Perigara. Ela tinha dificuldades com a autoestima e participando há anos das ações do Sesc teve acesso a palestras sobre cuidado pessoal e higiene e sua vida foi mudando. Dona Clélia também participou dos programas de reciclagem. Passando de barco e avistando o quintal de Dona Clélia às margens do Perigara, com as flores plantadas, com os objetos que ela mesma pega no rio e recicla, organizando-o no quintal, avistando a casa limpa, visivelmente organizada, Lidevina pensa no programa e no que significa estar ali. “Todo o processo de pensar um projeto, escrevê-lo, aprová-lo em diversas instâncias, organizá-lo, produzi-lo, treinar, contratar a equipe, vale a pena. É muito gratificante”, completa.

A cooperativa de reciclagem que o Sesc apoia desde 2011 é uma das atividades que Lidevina acompanha de perto. A cooperativa já possui CNPJ, inscrição estadual e foi chamada pela CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) local para recolher o resíduo seco das lojas do município. O trabalho começou com a mobilização local, passou pela capacitação até que a prefeitura alugou um galpão. Apenas mulheres trabalham hoje. Não é uma regra, mas elas acabam entrando na capacitação e seguindo para ampliar a renda da família, conquistar uma profissão. “Elas acreditam no trabalho. A Elizabeth, por exemplo, que todos chamam carinhosamente de Bebel, é tão positiva e determinada... A Gisele, que é voluntária e é doutoranda de Geografia é de uma entrega...”, diz.  Lidevina informa que atividade é “pesada”, mas que elas não desistem”. E é essa determinação que ela não se cansa de (vi)ver.